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Topic-iconMONTANHA MÁGICA : A FANTASIA TEUTÔNICA EM THOMAS MANN

10 meses 4 semanas atrás - 10 meses 4 semanas atrás#68por bruno

Murilo Moreira Veras

O livro em discussão é A MONTANHA MÁGICA, o autor Thomas Mann (1897-1955), escritor alemão, de obra prolífica, mas enigmática. O romance é apresentado como “de formação”. Teçamos algumas considerações sobre o livro.

1. Prólogo

Thomas Mann escreveu este livro em 1924, após a 1ª Guerra Mundial de 1914-17, portanto sob o impacto dos horrores do conflito, a Alemanha arrasada, seu povo envergonhado e oprimido ante as consequências advindas. Como todo germânico, com a moral baixa, ressentimento à tona, mais uma vez a alegoria germânica, ferida, o orgulho do povo desmoralizado. “Montanha Mágica”: melhor designá-la “Montanha Trágica” ou “Montanha Fúnebre”, aliás, característico para sugerir o que o livro parece representar no panteão da cultura universal: a celebrada Fantasia Teutônica. Mas, devido seu estilo carnavalesco e conteúdo quase enciclopédico, outras interpretações são possíveis, até as mais absurdas, embora factíveis.

2. O Livro: Trama e Temática

O romance gira em torno de sete anos que o personagem, Hans Castrop, de família abastada, engenheiro naval, passa num sanatório em Davos, Suiça. A princípio, ele vai apenas fazer uma visita de poucas semanas ao primo Joachim, que ali se encontra internado, em tratamento pela tuberculose, já há um bom tempo. O sanatório abriga uma amálgama de raças, alemães, russos, austríacos, espanhóis, personagens as mais diversas com hábitos e comportamentos diferentes, formando uma espécie de mistura. Castrop vai conviver naquele meio, com seus hábitos germânicos, embora apaziguados, de certo modo. Ocorre que ele, em vez de visitante, de repente passa a paciente, quando o Dr. Krokowski, clínico responsável pela clientela doente do sanatório, descobre que o rapaz abriga no organismo bacilos da enfermidade, também. E é assim que, em vez de semanas como programara, Castrop acaba ficando sete anos no sanatório, em tratamento. O livro todo é para narrar os feitos, ocorrências e os inúmeros encontros e diálogos trocados com esses vários personagens que se acham abrigados no sanatório. Enquanto isso, o autor, germanófilo moderado, aproveita para expor, sub-repticiamente, ao leitor desavisado suas 800 páginas de “fantasia teutônica.” E sob tal cenário nos defrontamos na narrativa do autor com reflexões, ideias e considerações desde sobre medicina, política, religião, cosmogonia, literatura, teorias espiritualistas até palestras de reflexologia, embriologia e, por incrível que pareça, sessões espíritas, inclusive com o aparecimento de morto ao vivo. Quanto ao objetivo a que se propôs Mann neste romance, cada leitor que encontre a sua finalidade, basta que escolha entre as várias opções, muitas delas disparatadas, mas plausíveis.

3. Uma Interpretação Crítica Alternativa

O leitor mais atento e com certa dose de devaneio, o que acha quando se defronta diante desse verdadeira catapulta de diálogos, elucubrações, dissertações e veleidades enciclopédicas? Como interpretar a suposta Fantasia Teutônica à luz de nosso século? Como não somos gigante nem adivinho, preferimos colher alguns frutos mais terrenos, enquanto o autor vagueia pelos altiplanos do intelectualismo e spinosismo literário.
Hans Castrop, o personagem central, é mais um rapaz burguês bem educado, com certa dose de espiritualidade, que se vê obrigado a conviver num sanatório nos altiplanos suíços – o Sanatório a representação do Purgatório na Terra ou de preferência noutro plano, onde os mais diversos pecadores purgam suas faltas e pecados, no caso a tuberculose, curável ou incurável. Ele e o primo, Joachim, ambos têm a vocação apostolar, fazem a caridade de visitar os doentes, muitos em estado final. É o caso da mocinha de 16 ou 17 anos, Leila Gerngross (pag.346), uma criatura angélica, cuja tênue mãozinha nosso caridoso Castrop mantem segura nas suas, antes de sua hora extrema – Castrop pode simbolizar o próprio Cristo em visita a um doente (Castrop de Castrati, considerando que o Mestre era casto, por natureza e fé). De sua parte, nessas suas andanças missionárias, Joachim, primo de Castrop, o acompanha – representa João Baptista, aquele que anuncia o Mestre. Em determinado instante, Castrop diz, por exemplo, que lá embaixo na planície, de onde viera, ele é engenheiro naval e lida com o mar – o Mestre Jesus andou sobre o mar da Galileia no barco de pescadores tornados discípulos por ele.
Quantos aos personagens – pecadores que se submetem aos procedimentos do sanatório/Purgatório – figuram “n” espécimes. São intrujões, falastrões, desrespeitosos, deseducados, impulsivos e mulheres de “dedos curtos”, como a desprezível Karoline Stöhr, com suas gafes, palavras vulgares e lugares-comuns (pag. 343). O autor sempre faz crítica velada às mulheres, inclusive à própria paixonite de nosso herói, Clawdia Chauchat – nesse aspecto diferindo do Mestre que nunca desprezava o pecador, mas o pecado.
Com Clawdia Chauchat, um mulher bonita e apetitosa, cliente de alguns anos do Sanatório, Castrop, o Crístico, mantém paixão “até a raiz do cabelo” (pag. 265), desde o momento em que a vê. Ela é russa, bate sempre a porta do refeitório com estrondo, talvez para ser vista, casada, mas tudo indica separada do marido. Jacques Tati, cineasta francês com vários filmes de humor hilário no seu “As Férias do Sr. Hulot” exibe cena de uma porta num refeitório a qual uma pessoa bate sempre com rumor, espantando os hóspedes. Chauchat representaria Madalena, por quem o Mestre tinha grande afeição por haver-lhe perdoado os pecados. É considerada discípula predileta entre os Discípulos.
Outra pista de nosso herói como espécie de sacerdote (mais uma prova de sua imitação a Cristo), é quando recita na morte do aristocrata austríaco: “Resquescat in pace. Sit tibe terra levis. Requiem aeternam donna eis, Domine.”

A paixão de Castrop pela cativante Clawdia Chauchat está retratada no livro em francês (pags.383-398). É quando ele se declara abertamente à enigmática criatura. Sua declaração exala paixão e sexualidade, esta, às vezes, como se depreende em francês, é nada velada. Em seu famoso conto, considerado o mais erótico de Machado de Assis, Noite de Galo, o autor mantém linguagem simbólica, cheia de significados eróticos velados, sem precisar apelar para o vulgarismo. A título de exemplo, reproduzimos parte principal da declaração, quase libidinosa, de nosso herói:
“... Laisse-moi toucher dévotement de ma bouche l’arteria femoralis qui bata au font de ta cuisse et qui se divise plus bas in les deux artères du tíbia! Laisse-moi ressentir l’exhalation de tes pores et tâter ton duvet, image humaine d’eau et d’albumine, destinée pour l’anatomie du tombeau, et laisse-moi périr mês lèvres aux tiennes.” Em resposta, snobando o galanteador, ela apenas responde: “N’oubliez pas de me rendre mon crayon” (pag. 398). O que isto quer dizer? Que o galanteador não tem lápis (pênis suficiente?) para satisfazê-la, daí pedir a devolução de seu “lápis” (o sexo?)? Também aqui nosso Castrop se desvincula da figura de JC, não passa de um pecador comum, ardorosamente apaixonado por uma mulher.
Outro personagem de destaque é o professor humanista italiano, chama-se Setembrini, dublê do próprio autor, com toda sua demagogia, espécie de anarquista. Há inúmeros diálogos entre os dois, Setembrini e Castrop, enquanto seu primo Joachim se mantém quase sempre em silêncio, respeitando o Mestre. Também João Baptista não ultrapassa a competência de Jesus, que é por este confirmado pelo batismo. Além do humanista, também surge figura singular: Naphta (de naftalina?), jesuíta que abandonou o seminário por causa da doença e cumpre também sentença punitiva, um sujeito baixo, com olhos e nariz de coruja, lábios finos e compridos, um verdadeiro monstrinho descrito pelo autor, defensor violento do cristianismo e da Igreja Católica, além de ferrenho opositor ao italiano, o qual, no contexto, representa o Advogado do Diabo.
Esses dois personagens ocupam, no mínimo, um terço do volumoso romance. As discussões versam sobre política, religião, filosofia, e outros quejandos. O pobre do leitor que se cuide para deglutir toda sorte de assuntos, assertivas, negativas, controvérsias, através dos quais os dois se digladiam. Até aquele acontecimento trágico, já quase no final do livro, quando os dois desafetos resolvem decidir suas rivalidades num duelo, à bala. Coisa realmente absurda. E mais absurdo o comportamento do feioso e brigão Naphta, que, em vez de atirar no rival, mete uma bala na própria cabeça. Aliás, fica nas entrelinhas o saber-se a razão do funesto ato. Será que o Sr Mann quer nos insinuar, com seu blá-blá-blá, interminável que a doutrina católica acaba levando seus adeptos ao suicídio?
A partir da página 399, no capítulo intitulado “Transformações” o autor, através de seus personagens, filosofa sobre o tempo. Castrop – agora espécie de defensor do cientificismo, mais uma vez se apartando da figura crística – advoga que o tempo é destrutivo, ligado ao mundo fenomênico. Ora, alega, se o tempo for eterno e infinito, tudo ficará limitado, as coisas reduzidas a zero. E pergunta: distâncias, movimento transformações dos corpos no universo são compatíveis com a eternidade e infinitude? É claro que o Sr. Mann apoia a teoria evolucionista e faz demagogia, quando se intromete em área movediça como a especulação em torno do tempo. Somos obrigados a fazer, sobre o assunto, as seguintes ponderações:
a) as controvérsias sobre o tempo datam dos pré-socráticos, com os filósofos Parmênides, Heráclito, Demócrito e Zenão de Eléia e até antes deles, com Pitágoras, este com sua teoria dos números;
b) Platão e Aristóteles procuram harmonizar as incongruências, ambos se opondo ao célebre dilema de Aquiles versus a Tartaruga, em desafio enigmático – Aquiles nunca alcançaria a tartaruga, pois sempre teria de vencer uma pequena distância a favor da tartaruga;
c) Segundo Platão e mais tarde Aristóteles, o enigma zeneano não fazia sentido, pois o mundo é perene e o tempo é infinito;
d) Em “As Confissões”, Agostinho normatiza a questão do tempo de forma bem clara: eternidade e tempo são incomensuráveis, isto é, imedíveis.

Outro aspecto controvertido no livro é quanto à ideologia que o autor assume, através de seus personagens. À página 430, Joachim, que é militar, diz: “... sem guerras o mundo apodreceria dentro de pouco tempo, como disse Moltke.” Ele se refere Von Moltke, marechal prussiano que lutou (1870), quando surgiu o 2º Reich, publicou vários livros sobre assuntos estratégicos, inclusive articulador de uma “teoria de guerra”, em que desenvolve os métodos de Napoleão, dizendo: “... a guerra é uma questão de conveniência..” Depreende-se, daí, o sentimento belicista do autor, o que confirma sua “fantasia teutônica”.

Enfim, restam-nos três pontos a serem esclarecidos nessa catapulta de Thomas Mann: 1/o que é a “fantasia teutônica”, a que o autor se filia e 2/ se ele professa algum sentimento germanófilo e 3/ o porquê de o espiritismo incorporar no romance espécie de representação simbólica.
“Fantasia Teutônica” é uma espécie de mito litero-cultural, preconizado pela celebrada “República de Weimar”, em que se abeberava a parte erudita do povo alemão (Goethe, Shilley, Liszt e até Nietzsche, assim como de certo modo Hegel, Engel e Marx). A elite alemã sonhava com o Eldorado para o povo alemão. Com essa obra, o autor catalisa para a Alemanha o espetro de uma fantasia, em outras palavras, o engajamento, embora muito sutil, do alemão com o “arianismo”, isto é, de que esse povo descende da raça pura indo-europeia, desprezando, consequentemente, a mistura de raças – slogan principal do 3º Reich.

Apesar de ter tido sua cidadania alemã cassada (1936), tornar-se cidadão americano (1944) e ter fixado residência permanente em Zurique (1952), pelo menos neste romance, o autor se manifesta a favor da “fantasia teutônica”, cujo idealismo arianista nunca parece ter de todo se desvanecido – assim como fez o filósofo Heidelberg, que, no período nazista, foi nomeado por Hitler e aceitou ser reitor de uma universidade.

O que é afinal a Montanha Mágica, qual o simbolismo desse título emblemático? Parece-nos algo simplista dizer que se trata apenas de um romance envolvendo a vida de várias pessoas num sanatório, nos altiplanos da Suiça. Thomas Mann escreveu 800 páginas para narrar histórias de pessoas atacadas de tuberculose, lutando para se curar, travando discussões entre si sobre sua doença, a vida, política de vizinhança e desencontros amorosos? Por que vemos nas entrelinhas romanescas, fatos, situações e cenas intrigantes, como, por exemplo, um médico, Dr. Krokosvi, fazer palestras sobre o amor, a doença, ao mesmo tempo que Castrop viu seu primo Joachim, para ser atendido por esse médico, desaparecer... “ na penumbra da caverna analítica do Dr. Krokosvski” (pag. 425). Consultório médico uma caverna analítica? Noutra ocasião (pag. 383), quando Castrop pede um lápis à sua paixonite Clawdia Chauchat, num dia de carnaval, ele não tinha uma gota de sangue na cabeça! Sem uma gota de sangue na cabeça, então ele já está morto!
À pag. 354, uma personagem, Sra. Zimermmann, muito doente, mesmo assim vivia rindo a ...”risonha senhora” e acaba falecendo – estaria atuada por algum espírito galhofeiro, segundo a doutrina de Alan Kardec? Outra dica aparece no caso da pequena Leila Gerngross, de 16 a 17 anos, já desenganada, em que o autor explica: “... A coitadinha, a menina querida iria morrer, os médicos já não lhe davam esperança, e somente e mesma era culpada, a mãe com seus antecedentes.”(pag. 346). A menina é culpada da doença, a mãe, os seus antepassados? Só se ela estiver pagando um “carma” da mãe, dos antecedentes, segundo a doutrina espírita da reencarnação.
À pag. 72, logo no início do romance, sobre a ida ao sanatório, há uma frase assim: “... desceu às profundezas onde os mortos pairam e vegetam.” E em seguida Castrop, dirigindo-se ao Sr. Setembrini: “... não diga isto Sr. Setembrini, que subiu cinco mil pés para chegar aqui.” E mais adiante: “”... somos criaturas que caíram muito baixo.” Observe-se mais adiante à pag.l38 e 141, que Castrop faz um passeio solitário e acaba caindo numa espécie de transe, improvisando um canto. Acreditamos que ele teve uma experiência fora do corpo, fora do espaço e tempo. Prática espírita? De sua vez Dr. Krokoswski, apesar de médico, tem a postura de um “místico” nas suas palestras. Enquanto isso, à pag.335 vê-se que havia no sanatório uma “diaconisa”, prova de que ali se faziam também sessões espíritas, exercícios ou funções desse gênero. Isto sem falar que no sanatório, eis que um dia faz-se uma “sessão espírita”, pessoas reunidas numa mesa, com copos correndo, vozes de defuntos redivivos, até o aparecimento repentino do pobre Joachim, falecido há pouco, num verdadeiro e estranho “happening” malabarístico.

Por tudo isso, é-nos crível, portanto, que o sanatório pode representar realmente o Purgatório ou a “Montanha Mágica” o outro plano espiritual, esse segundo a doutrina kaderciana, a mesma do médio Chico Xavier, que, por sinal escreveu um livro psicografado intitulado “Nosso Lar”, referindo-se ao outro mundo, onde, inclusive as pessoas faziam as mesmas coisas quando vivos, comiam, bebiam, iam a escola, fornicavam...

4. Impressão Pessoal

Sob nosso crivo pessoal e privativo, pensamos que o romance do Sr. Thomas Mann é uma verdadeira enciclopédia, fisicamente com suas mais de 800 páginas e culturalmente por representar, nos seus inúmeros, mitos e elucubrações, fantasias e manifestações de todo o gênero, espécie de deterioração do ser humano ao longo do tempo, responsável pela corrupção e degeneração da espécie, nos diversos tipos de raça – dai haverem no sanatório russos, italianos, espanhóis, austríacos misturados com alemães.
A deterioração decorre da finitude do tempo, a existência sendo casual e aleatória, na mesma ótica darwiniana. Todavia, insinua o autor que é possível estancar esse extermínio com a ascensão de uma raça pura, imune ao desgaste (a tuberculose, inclusive moral), somente encontrável mediante a eugenia.
Não precisamos dizer que tal ideário não encontra abrigo em nossa concepção humanístico-filosófica da vida, do ser humano e do mundo.

Bsb., 22.02.17

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