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Topic-iconFAZEDOR DE VELHOS - Rodrigo Lacerda

8 meses 3 semanas atrás#69por bruno

Murilo Moreira Veras

O romance de Rodrigo Lacerda – O Fazedor de Velhos – prima por pretender ao autor um lugar ao sol nas letras brasileiras atuais. O escritor, neto de Carlos Lacerda, acumula no currículo alguns prêmios: da Secretaria de Cultura de São Paulo (2006), Prêmio Glória Ponde de Literatura infanto-juvenil, da Fundação da Biblioteca Nacional (2008), Prêmio Jabuti, Categoria Melhor Livro Juvenil (2009), Prêmio Origenes Lessa, Categoria Melhor Livro para Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infanto-juvenil (2009) e finalista do Prêmio Francês Chronos (2014).

Por enquanto persigamos o presente O Fazedor de Velhos. É um romance de formação? Uma narrativa para jovens? Ou um pequeno breviário de como vencer na vida? Pode ser, se nos debruçarmos sobre a manufatura sentimental de sua finalidade, o porquê do livro, a que se propõe, se desvenda o mistério da vida. Ou uma estória de autoajuda à moda da casa, à brasileira, com alguma pitada de tragédia shakespeareana – especificamente a tragédia Rei Lear. Aliás, com a tragédia não há nenhuma ligação, pelo menos aparentemente.

Ora, convenhamos. Os atuais autores brasileiros se caracterizam pela adoção do gênero literário, que eles acham o mais moderno, o chamado veracismo. É assim que, hoje em dia, escrevem, Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Dalton Trevisan, Edney Silvestre, J.P.Cuenca, Antônio Prata, Chico Mattoso, Daniel Galera, Julian Fuks, Michel Laub, Vinicius Jatobá e outros de escritura modernosa, querendo interpretar o real como a verdadeira realidade, o que não existe, no seu segundo momento o real deixa de ser real, porque o real pode não ser mais racional e o racional nem sempre reflete o real.

Em O Fazedor de Velhos o autor foge, pelo menos em tese, desse círculo-de-giz, a camisa-de-força que vem se forjando a escritura romanesca e não romanesca no País. Procura-se fugir e tenta-se forjar um outo modelo, embora este caia, a nosso ver, noutra armadilha que é o molde sentimental da autoajuda. Então o livro O Fazedor de Velho nos conta uma estória, faz uma narrativa diferente, em que o personagem central, numa espécie de solilóquio, desfia uma parte de sua vida. É uma tentativa de fazer um romance de formação. Caminho das pedras para a juventude? Ou pequeno manual de como alcançar a felicidade à custa de esforço pessoal monitorado?

Note-se que não pretendo fazer uma resenha do livro. Prefiro extrair dele algumas reflexões sobre o tour-de-force que levou o autor a elaborar sua obra.

Nossa juventude, nossos estudantes atuais, as nossas escolas, a administração do ensino no País, encontram-se, sob nossa ótica, em estado agônico profundo, num beco sem saída. Os estudantes pouca ou quase nada leem, o sistema de pesquisa é totalmente virtualizado. São fracos em matemática e não entendem o pouco que leem, com o demérito de quererem obstaculizar o idioma pátrio, trocando-o por um linguajar mefistofélico e inteiramente imbecilizado, em uso corrente na internet e nas redes sociais.

Reflitamos. O autor, nesta narrativa peculiar, tenta uma fórmula que quebra o padrão quase paroquial dos nossos atuais supermodernistas de plantão. Ele nos traz um personagem que é um estudante que não sabe ainda o que quer fazer, que carreira seguir, se entra na faculdade para se formar em história, ou se se declara ou não a namorada. Recorda que aprendeu a ouvir, desde pequeno, poesia e ouve sua mãe declamar Castro Alves e Gonçalves Dias. Ler José de Alencar e se encanta com as frases poéticas de Iracema. Embora meio oco de cabeça – como quase todo estudante brasileiro – devido a mediocridade institucional de nosso ensino – Pedro acaba encontrando uma espécie de guru, o qual irá influenciá-lo na escolha de sua profissão. O esquisito Professor Nabuco irá também ensiná-lo a ter um sentido na vida.

Mas como desabrochar uma mente – a mente do estudante mediano brasileiro – e instruir uma pessoa não só no caminho do conhecimento, mas, sobretudo, em domar e reconstruir seus sentimentos, enfim, como fazer com que Pedro amadureça, num ponto de equilíbrio tal que se torne verdadeiramente um ser humano e não uma besta?

E pasmemos nós, que ainda nos abeberamos nos padrões do ensino clássico. O rabugento professor Nabuco, o guru improvisado daquele desavisado estudante, manda que ele faça pesquisas. Ele quer que seu pupilo encontre sua verdadeira profissão, se ele quer mesmo ser historiador. Os nossos estudantes são carentes em termos de pesquisa. O computador é apenas uma válvula de escape, busca, mas não se aprofunda. A pesquisa enriquece o pesquisador, aprofunda seus conhecimentos, pluraliza seu raciocínio e racionaliza seu pensamento.

Neste ponto o livro do autor sugere outro nível de conhecimento, que é o da educação sentimental, em se falando de humanismo e humanidade propriamente dita. O que é o ser humano, que rumo tomam seus sentimentos, vivemos por viver ou nossa vida deve ter um sentido? Qual o sentido da vida, se não sabemos ordenar nossos próprios sentimentos?

E novamente o autor nos surpreende. O livro que o velho Professor Nabuco recomenda ao despreparado Pedro, nosso protótipo estudantil, é ler nada menos que Shakespeare, precisamente uma das obras mais incomuns e pouco ou nada conhecida pelo público leitor: a tragédia Rei Lear. E lê-la no idioma do autor da peça. O modesto e atual universitário terá de encontrar, no cipoal das falas de que se compõe a estrutura da peça do maior teatrólogo medieval britânico, a frase que resume toda a peça. Sem falar que terá a tortura de decifrar o rebuscado inglês utilizado por Shakespeare.

É claro que o autor, como ficcionista, aproveita esse estranho mote – a frase que exprime a peça – para construir o enredo, com que cria os personagens, insere no seu bojo uma história de amor, uma paixão mais racionalizada, a descendente japonesa Mayumi, que coincide ser afilhada do velho mestre, por quem nosso personagem se apaixona.

Com esta trama, de certo modo banal – a paixão de um rapaz por uma moça, ambos jovens – O Fazedor de Livros nos relata uma história ou estória de amor e compaixão que pretende evocar elevados sentimentos, não só os referentes ao amor em si, mas à força espiritual, à sabedoria, que faz do ser humano melhor e mais solidário, a razão final que deve imperar na vida. E não o farisaísmo vigente da sociedade atual.

A nosso ver, o livro do autor sinaliza para duas vertentes importantes em termos de apreciação de uma literatura praticamente de exceção:

(a) estímulo à pesquisa, a que todo estudante ou não deve se devotar;

(b) - busca pelo sentido da vida, espécie de caminho de espiritualidade, imprescindível à ascese do homo sapiens na sua verdadeira humanidade.

Entrementes, a frase que sintetiza a peça Rei Lear, de Shakespeare, parece envolver o romance numa certa atmosfera de fatalismo:

“As flies to wanton boys, are we to th’gods – They kill us for their sport.” – Ato 4, cena 1
(Como moscas para meninos travessos, assim somos nós para os deuses; eles nos matam por diversão).

A frase final do livro O Fazedor de Velhos parece reverter o enigma:

“Os deuses nos matam por diversão, mas, afinal, também são eles que nos fazem nascer.”
Bsb., 8.04.17

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